Há alguns dias (ou seriam meses?...) tenho estado silenciosa.
Desencantada?
Cáustica?
Crítica?
Talvez, esse momento pós cirúrgico onde fico obrigada a aquietar-me, apenas na observação do que se passa ao redor e até na distancia... neste silêncio, me faça enxergar mais do que quero ver.
Não sei...
Olho à minha volta e não gosto do que me circunda, nem do que sinto.
Fazer parte da superficialidade com que se estabelecem as relações pessoais próximas e distantes está me deixando, no minimo, fragilizada.
Há algum tempo estou me sentindo inadequada sem conseguir descobrir em relação a quê. Ou, exatamente sabendo ao quê ou a ‘quens’...
Não consigo existir assim!
Preciso de profundidade.
De pé no chão.
De base.
De solidez.
Sinto enorme falta de:
* olhos nos olhos,
* de emoção do abraço apertado,
* de sorriso prazeroso de encontros e reencontros,
* de amenidade gostosa do bem-querer descompromissado e gratuito saboreado ao largo de uma xícara de chá ou suco natural,
* de eco a tudo que sou e ofereço,
* de união, especialmente dos mais próximos,
* de camaradagem profissional,
* de senso de doação,
* de sede e fome de justiça,
Falta de simplesmente me deixar ser e entrar no ritmo da vida.
Onde estão... (?)
* a verdade,
* a reciprocidade,
* o afeto,
* o amor,
* a lealdade,
* a alegria pura de ser o que se é,
- sem cobranças ,
- sem parâmetros de comparação
- sem culpas?
Em um cotidiano sem tréguas, feroz e competitivo, o mundo caminha por uma trilha onde sucesso é sinônimo de prioridades materiais e prestígio público.
Onde a desconfiança é latente naqueles que eram para realmente lhe conhecerem como o é...
Uma indizível solidão salta dos olhos das pessoas que já não se fitam... nem se amam.
Pelo menos como determina-se no mandamento cristão.
Não se importam...
Afinal "poder" tem sido melhor do que "ser".
Absoluto vazio existencial.
Ter consciência disso , fazer parte disso , é, como diria Clarice Lispector,“uma lucidez perigosa”.
O que fazer com essa certeza?
Definitivamente não quero isso para mim...
Talvez me faltem - ainda- coragem e ousadia para quebrar o cordão umbilical do faz-de-conta e ser sozinha mesmo, porque é assim que vou estar, quando ousar ser alguém e não algo.
Mas, então, pode ser esse o meu alumbramento: deixar de ser minha maior inimiga!

