24 de abril de 2012

AUTO-DESABAFO



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Desde menina que invariavelmente me pego - final de noite - fazendo um balanço do dia, semana, ano... de forma especial, a auto-análise é fatal, quase que diáriamente me tornou condição sine qua non (indispensavel).
Característica pessoal.
Em razão disso... tenho passado dias, semanas até sem fazer uma das coisas que mais gosto: escrever.
Hoje... reinicio com mesmo objetivo: dizer algo que venha do coração, sem máscaras, sem camuflagem, sem nenhuma forma outra que não seja a verdade, por menos bonita ou dolorosa que seja.

O Tempo que me resta 

Os anos me revestiram de uma impenitente obstinação.
Persisto.
Não me intimido no pavor de ser jogada na direção do imponderável.
A experiência de lidar, constantemente, com alegrias e decepções, tristezas e triunfos me deixou com uma estranha sensação: nada pode espantar-me.
Paradoxalmente, insisto na teimosia e abandono o desafio de mover montanhas.
Por anos, esqueci de contar os meus dias.
Desperdicei tempo.
Trabalhei incansavelmente.
Estudei... Estudei... Estudei... e, continuo estudando, senão, fico pra trás.
Engajada, tentei construir castelos improváveis.
Perdi-me no ativismo de um otimismo exarcebado.
Abracei mais projetos do que podia – muitos não passavam de fuga.
Dei passos maiores do que as pernas.
Na correria, evitei monologar.  
Quebrei espelhos para não ficar cara a cara comigo mesma. 
Devaneios onipotentes serviram para desancorar a jangada do porto de minha realidade. 
Delirei com utopias messiânicas.
Desenraizei-me.
Hoje, com poucas folhas no calendário (rs), tento redobrar cada instante.
Redescubro o ócio, ainda que esteja à frente de uma enorme responsabilidade junto à uma Instituição familiar, trabalhando, trabalhando, trabalhando...
Reaprendo a rotina.
Desejo reencontrar-me no des-sufoco.
O dia sem espalhafato me basta. 
A noite, sozinha... me dá refrigério.
Quero viver, simplesmente viver, saboreando detalhe por detalhe do que faz parte da vida.
Sim, consciente dos obstáculos e sem quixotismo, Ser... simplesmente Ser.
Mesmo consciente de que alguma tragédia possa rondar a minha casa, proponho a mim mesma perder a pressa.
Sair da marcação cerrada do relógio que nos condiciona-incondicionavelmente.
Consternada, noto um vazio embaçando os olhos de antigos e até atuais amigos .
Vazio tenebroso.
Entristecida por vê-los roubados de si mesmos, tatuo na pele um mandamento: viva com intensidade!
Não quero perder a alma.
Marco a ferro o imperativo de amar o belo, a justiça, o bem.
A idade através do tempo, abre os meus olhos.
Noto ventanias assobiando pelas frestas do castelo que outrora considerei inexpugnável.
Eu, adolescente afoita, cedo para a mulher da esperança cauta, estava presa, só não queria admitir.
A construção de uma personagem me consumiu – custou-me caro.
Hoje, escancaro janelas e portas.
Declaro-me devassável.
Assumo minhas fragilidades.
Conscientizo-me com minhas vulnerabilidades.
Permito-me... errar, sem culpas e medos.
Perco o receio de admitir minhas limitações, e, da mesma forma, conheço de perto, meu potencial. 
Já não me tranco para o vento impetuoso que espalha o pó das vaidades.
Entre o desempenho e a contemplação, prefiro apaziguar os olhos.
Aprimoro a dança, que me faz tão bem... afinal, quem já foi bailarina clássica, não deixa de ser .
Serena, espalho o bálsamo que sara feridas.
A pausa tem poder de cura.
O Eclesiastes avisa: existe tempo para tudo.
Sim, há tempo, inclusive, de fechar olhos e ouvidos.
Tempo de ir para o escuro e esperar o feitiço do ódio desaparecer, a mágoa da injustiça, abrandar.
Do silêncio, arrancar forças que esvaziam antigos messianismos – todos travestidos de piedade.
Chego a ouvir o barulho do meu rancor, disfarçado de religiosidade, perdendo cada vez mais, força.
A minha paz precisa dessa fonte de bonança.
Desejo a sensibilidade de escutar um ribeiro, que se espreme entre pedras.
Procuro, entre vários barulhos, o murmúrio dessas águas despretensiosas.
Entro na época própria de declarar: já não me empolgo com o rugir das marés.
Prefiro as suaves sinfonias.
Em mim, a violenta rebentação dos oceanos cede espaço para a sinfonia dos regatos.
Sim, permiti que se grudassem abatimentos e azedumes no coração.
Ainda carrego um bornal com pedregulhos ásperos – metáfora de memórias que cortam.
Não as coleciono com orgulho.
As quinas afiadas de meu passado dolorido carecem de um tempo moroso, que me permita burilar todas as perdas e pedras. 
Cansada de sentir os cardos da desilusão, também necessito descobrir a terapia de passear em jardins, praças, coretos... (será que ainda existem?)
Já me falaram de pessoas restauradas pela beleza das flores e pelo cheiro da mata.
Quem sabe eu reaprenda a sentar em cadeiras de balanço e saiba cultivar uma quietude capaz de fazer-me coincidir comigo mesma, pois, amo o silêncio.
Prometo: hei de deitar-me, serena, como fazia nos tempos de menina; vou balançar na rede e deixar o ranger dos ganchos aquietar o sono.
Guardo saudades melancólicas.
Visitada por uma nostalgia triste, recuso perder quem eu amo.
Eis porque me esforço tanto para passar um cadeado na amargura e desvencilhar-me do narcisismo tolo de querer salvar o mundo.
Devo proteger as únicas riquezas que me restam: meus queridos. 
(Aviso raposas e chacais: – Vocês não destruirão as minhas vinhas; não permitirei que vocês invadam o território onde protejo a minha matilha), porque sou mulher e homem pra isso.
Disponho de menos tempo do que já vivi.
Pretendo degustar cada dia com a delicadeza que ele merece.
Os anos que me restam podem ser poucos, mas não serão banais.
Com certeza!
Tenho dito.
***