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Desde menina que invariavelmente me pego - final de noite - fazendo um balanço do dia, semana, ano... de forma especial, a auto-análise é fatal, quase que diáriamente me tornou condição sine qua non (indispensavel).
Desde menina que invariavelmente me pego - final de noite - fazendo um balanço do dia, semana, ano... de forma especial, a auto-análise é fatal, quase que diáriamente me tornou condição sine qua non (indispensavel).
Característica pessoal.
Em razão disso... tenho passado dias, semanas até sem fazer uma das coisas que mais gosto: escrever.
Hoje... reinicio com mesmo objetivo: dizer algo que venha do coração, sem máscaras, sem camuflagem, sem nenhuma forma outra que não seja a verdade, por menos bonita ou dolorosa que seja.
O Tempo
que me resta
Os
anos me revestiram de uma impenitente obstinação.
Persisto.
Não
me intimido no pavor de ser jogada na direção do imponderável.
A
experiência de lidar, constantemente, com alegrias e decepções, tristezas e
triunfos me deixou com uma estranha sensação: nada pode espantar-me.
Paradoxalmente,
insisto na teimosia e abandono o desafio de mover montanhas.
Por
anos, esqueci de contar os meus dias.
Desperdicei
tempo.
Trabalhei
incansavelmente.
Estudei... Estudei... Estudei... e, continuo estudando, senão, fico pra trás.
Engajada,
tentei construir castelos improváveis.
Perdi-me
no ativismo de um otimismo exarcebado.
Abracei
mais projetos do que podia – muitos não passavam de fuga.
Dei
passos maiores do que as pernas.
Na
correria, evitei monologar.
Quebrei
espelhos para não ficar cara a cara comigo mesma.
Devaneios
onipotentes serviram para desancorar a jangada do porto de minha
realidade.
Delirei
com utopias messiânicas.
Desenraizei-me.
Hoje,
com poucas folhas no calendário (rs), tento redobrar cada instante.
Redescubro
o ócio, ainda que esteja à frente de uma enorme responsabilidade junto à uma Instituição familiar, trabalhando, trabalhando, trabalhando...
Reaprendo
a rotina.
Desejo
reencontrar-me no des-sufoco.
O
dia sem espalhafato me basta.
A noite, sozinha... me dá refrigério.
Quero
viver, simplesmente viver, saboreando detalhe por detalhe do que faz parte da vida.
Sim,
consciente dos obstáculos e sem quixotismo, Ser... simplesmente Ser.
Mesmo
consciente de que alguma tragédia possa rondar a minha casa, proponho a mim
mesma perder a pressa.
Sair
da marcação cerrada do relógio que nos condiciona-incondicionavelmente.
Consternada,
noto um vazio embaçando os olhos de antigos e até atuais amigos .
Vazio
tenebroso.
Entristecida
por vê-los roubados de si mesmos, tatuo na pele um
mandamento: viva com intensidade!
Não
quero perder a alma.
Marco
a ferro o imperativo de amar o belo, a justiça, o bem.
A
idade através do tempo, abre os meus olhos.
Noto
ventanias assobiando pelas frestas do castelo que outrora
considerei inexpugnável.
Eu,
adolescente afoita, cedo para a mulher da esperança cauta, estava presa, só não queria admitir.
A
construção de uma personagem me consumiu – custou-me caro.
Hoje,
escancaro janelas e portas.
Declaro-me
devassável.
Assumo
minhas fragilidades.
Conscientizo-me
com minhas vulnerabilidades.
Permito-me...
errar, sem culpas e medos.
Perco
o receio de admitir minhas limitações, e, da mesma forma, conheço de perto, meu
potencial.
Já
não me tranco para o vento impetuoso que espalha o pó das vaidades.
Entre
o desempenho e a contemplação, prefiro apaziguar os olhos.
Aprimoro
a dança, que me faz tão bem... afinal, quem já foi bailarina clássica, não deixa de ser .
Serena,
espalho o bálsamo que sara feridas.
A
pausa tem poder de cura.
O
Eclesiastes avisa: existe tempo para tudo.
Sim,
há tempo, inclusive, de fechar olhos e ouvidos.
Tempo
de ir para o escuro e esperar o feitiço do ódio desaparecer, a mágoa da
injustiça, abrandar.
Do
silêncio, arrancar forças que esvaziam antigos messianismos – todos travestidos
de piedade.
Chego
a ouvir o barulho do meu rancor, disfarçado de religiosidade, perdendo cada vez
mais, força.
A
minha paz precisa dessa fonte de bonança.
Desejo
a sensibilidade de escutar um ribeiro, que se espreme entre pedras.
Procuro,
entre vários barulhos, o murmúrio dessas águas despretensiosas.
Entro
na época própria de declarar: já não me empolgo com o rugir das marés.
Prefiro
as suaves sinfonias.
Em
mim, a violenta rebentação dos oceanos cede espaço para a sinfonia dos regatos.
Sim,
permiti que se grudassem abatimentos e azedumes no coração.
Ainda
carrego um bornal com pedregulhos ásperos – metáfora de memórias que cortam.
Não
as coleciono com orgulho.
As
quinas afiadas de meu passado dolorido carecem de um tempo moroso, que me
permita burilar todas as perdas e pedras.
Cansada
de sentir os cardos da desilusão, também necessito descobrir a terapia de
passear em jardins, praças, coretos... (será que ainda existem?)
Já
me falaram de pessoas restauradas pela beleza das flores e pelo cheiro da mata.
Quem
sabe eu reaprenda a sentar em cadeiras de balanço e saiba cultivar uma quietude
capaz de fazer-me coincidir comigo mesma, pois, amo o silêncio.
Prometo:
hei de deitar-me, serena, como fazia nos tempos de menina; vou balançar na rede
e deixar o ranger dos ganchos aquietar o sono.
Guardo
saudades melancólicas.
Visitada
por uma nostalgia triste, recuso perder quem eu amo.
Eis
porque me esforço tanto para passar um cadeado na amargura e desvencilhar-me do
narcisismo tolo de querer salvar o mundo.
Devo
proteger as únicas riquezas que me restam: meus queridos.
(Aviso raposas e
chacais: – Vocês não destruirão as minhas vinhas; não permitirei que vocês
invadam o território onde protejo a minha matilha), porque sou mulher e homem pra isso.
Disponho
de menos tempo do que já vivi.
Pretendo
degustar cada dia com a delicadeza que ele merece.
Os
anos que me restam podem ser poucos, mas não serão banais.
Com certeza!
Tenho dito.
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