“Amar é ter um pássaro pousado no dedo.
Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a
qualquer momento ele pode voar”.
Rubem Alves*
***
O que importa se voar o pássaro do amor?
O que importa é que a monumentalidade, deste gesto,
certamente, foi eu ter conseguido fazê-lo pousar num dos meus dedos, atraí-lo
atordoá-lo, tirá-lo do seu norte, fazendo que desgovernado desabasse sem
sustentação, em mim.E se o pássaro do amor que foi feito para voar entre tantos corações, espreguiçou-se pousado entre nós, sentiu nosso calor, trocou conosco momentos de afagos, ouviu repetirmos juntos as mesmas frases, e sonhou ao nosso lado os mesmos sonhos de êxtases e paixão, e se foi assim, mesmo que voe... Ficará.
É isso.
Ficará daquele amor de passagem, os encantos, em tantos outros recantos os quais jamais imaginávamos um dia conviver, respirar em atmosfera tão pura, apesar de contaminada por odor forte de corpos amados, suados por gozos plenos em peles atritadas, excitadas, sentidas nas gostosas coisas destas nossas peles, coisas da alma, coisas da felicidade.
E se voar o pássaro, deixará o ninho.
E ficará a vida, pelo menos aquela vivida e já com prazo de validade vencido, recolhida aos estoques agora indisponíveis, e distribuídos nas nossas prateleiras emocionais, como artigo invendável e apenas exposto para consumo da casa.
Pode ser efêmero aquilo que ficará eternamente inesquecível?
Pode ser volátil o que aprisionaremos para sempre nas nossas lembranças?
E sempre que passar uma criança será lembrado, um pato preto o lembrará, um pedalinho n’água, uma cama desarrumada no dia seguinte, será lembrado.
Poderá ser esquecido, se sempre que esfriar o tempo sentirmos as névoas invadirem nossos pulmões a provocarem vontade de abraços, inevitavelmente beijos atodoardos, mas, bem vagarosos, compridos, sentidos e como manda o manual das nossas mais sábias etiquetas de convívio a dois?
Este pássaro pode voar de retorno aos outros espaços sem fim, mais o infinito mesmo do seu vôo, terá sido o dia que ele tiver pousado num dos dedos das nossas mãos.
Quando se for, deixará isto sim, o maior feito de todos os vôos, nenhum outro igual, e por ter sido assim tão incomparável, ele mesmo sentirá necessidade de repetir e voltar.
Nem será preciso.
Não o faça, abstenha-se de voltar, é um aviso.
E sabe por que do aviso?
Nunca volte ao lugar onde você foi feliz para ali encontrar novamente aquela felicidade, pois, a paisagem estará tão irreconhecível que você teria preferido manter somente na imaginação o que, agora desaba por completo diante dos seus olhos.
Não volte pássaro, deixe ficar, somente o amor.
Faço de cada palavra... as minhas.
Queria eu ter escrito este texto.
Revela-me.
(Belíssimo!)
MBB
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