A vida acontece entre dois sentimentos, ambos
repletos de terror: esperança e medo.
A imprevisibilidade que a esperança excita... anima.
O futuro indeterminado... apavora.
Debaixo do céu, nunca se sabe o que acontecerá.
No dia do parto... esperança.
Na certeza da morte... medo.
Na semeadura... esperança.
Na desproteção de que uma praga forçará a perda da
lavoura, obrigando que se arranque o que foi plantado... medo.
No dever de ter que assassinar (mesmo internamente)
pessoas e sentimentos... medo.
Na expectativa do bálsamo, poção que cura feridas
impronunciáveis... esperança.
Na convicção de que os projetos estejam fadados ao
nada... medo.
Na teimosia de continuar a soerguer, reinventar ou
reconstruir... esperança.
Na antecipação de muitas lágrimas... medo.
No desejo de que os risos se alonguem... esperança.
Na insegurança do luto, nas câmaras lúgubres do
velório... medo.
Na valsa suave e delicada, no arrepio de corpos que
se tocam durante a melodia... esperança.
Na crispação de lábios, na segurança de mãos
arremessando pedras... medo.
No juntar de pedras que ferem e com elas montar
altares... esperança.
Na improvisação do abraço... esperança.
No cálculo da distância segura que separa os
insidiosos de abraçarem... medo.
Na busca do que jamais se imagina perder...
esperança.
Na resignação de que algumas dimensões da vida
nunca serão recuperadas... medo.
No anseio de segurar e eternizar... esperança.
Na conformidade do imperativo de deixar o tempo
arrastar para o oceano do nada o que foi vivido, medo.
No desespero de saber que algumas dimensões carecem
de serem rasgadas, descosturadas... medo.
Na perseverança em dar mais um ponto, alinhavo ou
remendo... esperança.
No discernimento do momento de tornar o silêncio
maçã de ouro em bandeja de prata... esperança.
No ímpeto de frisar um solene não quando todos
dizem sim ou de negar quando a ordem for afirmar... medo.
Na capitulação de aceitar que homens e mulheres, ao
contrário dos bichos, guerreiam por maldade nunca por motivos justos... medo.
Depois da batalha, da vala comum, do túmulo do soldado desconhecido e da sucata
bélica... esperança.
O Pregador, meticuloso, notou o modo como Deus
sobrecarregou homens e mulheres: não deixou nada previsível.
Todo o dia traz um potencial de angústia e
desespero bem como de alegria e de boas perspectivas.
A pior das inquietações descansa na alma:
incerteza.
Ninguém consegue se antecipar ao porvir e nunca
saberá esquadrinhar o que espera depois da morte.
A eternidade não faz sentido para os finitos, a
imortalidade não cabe no coração dos mortais.
Devido a esse derremamento existencial, nessa
prostração infinita, homens e mulheres nunca terão a resposta final para o
porquê dos atos divinos: não sabem como foi o começo e só especulam sobre o fim
de tudo.
Observem...
MBB


MBB,
ResponderExcluirtodo o seu texto , nesta ambivalência de medo e esperança trança em palavras exatamente,como se você uma competente bordadeira de Bilros literária.
Excelente!
O que você descreve é o tic -tac do relógio comportamental humano no seu dia-a-dia.
No entanto, ao final,quando fala sobre as respostas para a vida, lembro a você que elas são de dificilimas equações até porque MBB , geralmente quando nós encontramos as respostas, todos e como se fosse uma Teoria da conspiração, eles mudam as perguntas.
Pois é, fica difícil, não é?
Um abração carioca e obrigado pela honrosa visita.