9 de julho de 2012

COMO OBRIGA-SE... O AMOR ?


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Desta vez, meu olhar está na figura que não demonstra em sentimentos, o seu amor, ou, no desamor não há muito o que se demonstrar. 
Meu olhar está naquela pessoa que não ama, mas, que também não é ímpia, não é má no seu desamor. Apenas... não ama!
 
Este sentimento possui variações de pessoa pra pessoa. 
Cada um ama como aprendeu a amar, e diante das situações mais variadas, complexas, pra ser entendida de maneira simplista, como se neste assunto fosse algo matemático... exato.
Não! Não o é!
De maneira racional, analisemos...
Recentemente uma jovem ganhou uma causa na justiça contra seu pai alegando que este nunca havia lhe oferecido afeto.
Se não me engano obrigaram seu pai a lhe pagar cerca de duzentos mil reais por tê-la negligenciado amorosamente.
Quedei-me a meditar sobre este evento.
Até que ponto o amor pode ser obrigado?
Mais ainda, até que ponto o amor deve ser uma obrigação e deve prestação de contas à justiça?
Ora, o amor faz parte da moral, não do direito, o amor não se comanda, pois não é um dever.
O amor deve ser espontâneo.
Ele se constitui uma virtude, não um fardo.
O dever é uma coerção, a virtude uma liberdade
Segundo Kant o dever é um jugo, uma tristeza, enquanto que o amor é uma espontaneidade alegre.

O amor faz parte da moral porque precisamos da moral quando ele falta.
O amor evidentemente faz falta.
O dever conclama: age como se amasse.
Quando existe amor, não se torna necessária a obrigação, pois ele age com alegria e realiza as tarefas que, quando ausente, torna-se um dever.

Geralmente a mãe amamenta e cuida do filho com prazer; o marido é afetuoso com sua mulher, com prazer; a esposa trata bem o marido com prazer.
Quando se ama pequenos gestos tornam-se naturais, tais como um beijo de despedida, um bom dia carinhoso, um gesto ou palavra dócil na hora de dormir. 
É prazeroso voltar para casa e pronunciar a famosa frase lar doce lar, quando se ama.
Mas, que sacrifício voltar para casa e enfrentar aquele ou aquela a quem não mais se ama.
Que sacrifício ter que tomar conta de alguém que não se ama, e isto pode acontecer.
A mãe que sofre de depressão pós-parto, involuntariamente nem quer ver o filho, muitas das vezes.
Porém, isto é uma exceção, parte da doença.
Ou, quando a criança é indesejada, que tortura deve ser tomar conta dela, mas isto também é uma exceção, pois o natural seria amar e cuidar de seu filho ou filha.
Quando este amor não existe, então vem o dever e obriga os pais a cuidarem dos filhos, embora não sejam esses cuidados carregados de afeto.
Li um anúncio colado em vários postes pela cidade: 
"Trabalho de amarração.
Trago seu amor de volta. Resultado garantido, pague somente após o resultado."
Questiono novamente: que valor tem um amor trazido de volta à força?
Às custas de um trabalho de amarração e, ainda por cima, do inferno?
O nome já sugere: Você virá para mim nem que seja à força, amarrado. Segundo alguém prático na vida, o amor verdadeiro diz: 
Vá de encontro a você mesma, pois você somente conseguirá me amar se for você mesma.  
Sim, o amor verdadeiro só terá condições de subsistir se você entrar em um relacionamento inteiro como ser humano. Cem por cento! 
E, veja bem... ainda não conseguimos ser (100%) conosco mesmos... imagina, isto sendo cobrado do outro?

Rubem Alves, psicanalista, afirma que a saudade é o chão do amor.
Já Hélio Pellegrino, psicanalista e poeta, afirma que a liberdade é o chão do amor.
Espaço, liberdade, espontaneidade, constituem o amor como virtude, não como dever ou obrigação, portanto, nenhum oficial de justiça, nenhuma multa, nenhuma quantia pode substituir ou ressarcir a ausencia deste  amor.
Sua falta se faz sentir em todo relacionamento.
Ele é necessário em nossa vida, mas precisa ser real e espontâneo, prazeroso, tanto para quem ama como para quem recebe o amor.

Que possamos aprender a amar e a receber, sem cobranças, com liberdade e espontaneidade, com respeito à privacidade e, até mesmo, à individualidade.
Vale à pena amar e ser amada dessa maneira!
Do contrário, pra mim, valor nenhum há!
 ***


2 de julho de 2012

FORMA DE AMAR EM GESTOS DE AMOR


 ***

Quando se fala em gestos de amor, na imaginação de alguns aparecem demonstrações grandiosas postas diante dos olhos do mundo para que todos vejam. 
No entanto, o amor não necessita ser acompanhado de um tom exagerado e, sim, de espontaneidade.
O amor é tão generosamente simples que não precisa de manifestações estupendas para se revelar.

Muitas mulheres, em algum momento de suas vidas, sonharam com um homem aos pés, fazendo juras de amor eterno, coberta de mimos, ao que se pergunta: para que tanto?
A um homem que diz “eu amo voce” não há que se impor mandar dúzias de rosas à mulher amada a cada aniversário ou data especial de sua história.
Basta uma flor retirada de um jardim com a impetuosidade dos enamorados, um olhar nitidamente sincero e a cumplicidade dos amantes, que aplaina questionamentos e afasta a angústia sobre a reciprocidade do sentimento.
A uma mulher que deseja mostrar o quanto ama não se exige devoção extrema ao seu amado nem ofuscar a si mesma pelo outro.
São suficientes os gestos do cotidiano repetidos com ternura, exalando delicadeza em cada instante: um beijo de reencontro, um abraço estimulante, uma receita caprichada para o manjar a dois.
E ao par, nenhuma prova de fidelidade, apenas a certeza de que ambos são leais ao amor.

Dos filhos não se cobrem expressões incontestes e frequentes do que sentem pelos pais.
A confiança dá firmeza à relação, garantindo que podem uns contar com os outros e que não haverá desamparo na tristeza nem ausência na alegria. Filhos e pais sobrevivem aos solavancos e às rusgas porque aprenderam a superar os desafios do crescimento e a curar as feridas com o perdão mútuo.
O carinho a permear as atitudes corriqueiras deve ser fluido e permanente.

Amigos são mananciais de amor, mas não requeiram deles abrir espaço demasiado em sua intimidade para oferecer abrigo a todas as pessoas de seu convívio.
Já é bastante que estejam em nossas vidas e que estendam a mão a um apelo mais urgente.
Amizade duradoura tem sinceridade e dispensa intromissão que sufoca.
Um telefonema de vez em quando, um recado por e-mail, um cartão no aniversário, pequenas gentilezas fazem muito pelo relacionamento, mais do que não sair da vida de alguém sequer para que ele aprenda o que é independência.
E são tão bons os amigos ao alcance de um afago, de uma palavra ou de uma ajuda na hora “H” de um dia “D”, e é muito afetuoso o acolhimento em meio a desabafos, assim como brindes com risadas fartas.

Não carece que companheiros de trabalho convivam como amigos de infância.
Respeito é consideração que não se dispensa e, na maioria das vezes, é o que melhor define um bom ambiente profissional.
Não precisa transformar a organização em que atua numa espécie de segundo lar, mas, sim, não tratar os colegas como inimigos ou concorrentes dispostos a lhe tirar o chão.
Uma conversa animadora faz milagres pela estima que gostaríamos de ter. Prestar auxílio sem expectativa de recompensa ou elogio, compreender os limites alheios e aceitar o modo de ser dos outros são confirmações de humanidade.

Esperar que o amor se revele com grandiloqüência, ostentação e aparatos de produção cinematográfica pode levar à enorme frustração e, pior, dificulta perceber o que as pessoas fazem de bonito, embora com singeleza, para festejar a nossa presença.
Por isso, deixamos de agradecer a quem se levanta para nos trazer um copo d´água quando estamos com sede e preguiça, desliga a tv e apaga a luz quando cochilamos, faz a sobremesa que adoramos, puxa as cortinas para um sono reparador, caminha sem fazer barulho para não nos acordar, faz um café do jeito que gostamos, abre uma brecha na agenda para nos ver no meio da semana, compra alguma coisa que é “a nossa cara”, traz um lanchinho quando viramos a madrugada trabalhando, confidencia um segredo ou conta novidade em primeira mão, chama para sair num sábado em que estamos sozinhos, encontra uma informação útil para nós e liga num dia qualquer só para dizer que não nos esqueceu.
Gestos de amor são miudinhos.
O que é grande mesmo é o amor e a sua essência.

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1 de junho de 2012

SÓ VIVEMOS UMA VEZ!




Só vivemos uma única vez nesta vida!
Não há outra, como muitos pensam... 
Não teremos outra vez.
Não, ninguém espere outra chance.
Nascemos condenados ao horror de ver a ampulheta sangrar areia, os calendários acelerarem, os relógios se fracionarem em milésimos de segundos.
Vamos morrer.
E depois que tudo tiver cumprido o seu destino, restará o quê?
Diremos: “E agora, que a faca cortou, a lira tocou, o sol iluminou e o soldado matou?”.
Sobrarão nossos vestígios.

Um dia todos passarão.
Não ficará ninguém para observar nada.
Meros rastros empoeirados testemunharão para o vazio que alguém andou por aqui.
Mas a estrada permanecerá deserta.

Como serão os escombros?
Nas universidades, livros, teses, nomes, que nada significam; nos museus, paisagens mortas; nos quartéis, medalhas enferrujadas; nos bancos, cofres lacrados; nos templos, bolor.

Depois de exercer a sua missão, o próprio tempo deixará de existir.
Não haverá antes e depois.
O assobio do vento não precisará viajar até ouvidos atentos.
Se antes tudo era mudança, tudo se tornará estático.
Terminarão as causas e os efeitos.
Cessarão os contrastes.

Sem olhos, não existe beleza.
Vitrais intactos perderão o esplendor; ninguém vai declarar alumbramento. Serão inúteis: por do sol, lua cheia, maré em ressaca, pororoca.
Flautas, trompetes, pianos, pandeiros, harpas, jazerão em palcos desabitados diante de auditórios ausentes.

Somos um nadinha no tempo e nossa vaidade, uma neblina.
O Eclesiastes também quer sacudir:
“O destino do homem é o mesmo do animal; o mesmo destino os aguarda. Assim como morre um, também morre o outro. Todos têm o mesmo fôlego de vida; o homem não tem vantagem alguma sobre o animal. Nada faz sentido! Todos vão para o mesmo lugar; vieram todos do pó, e ao pó todos retornarão” [3.19-21].

Não demora e tudo deixará de ser.
Breve seguiremos o caminho dos mortais, bem como o próprio planeta, que se apagará como se apagam as estrelas.
Desapareceremos todos como desaparecem os vermes.
Portanto, enamoremo-nos.
Vivamos o instante impreciso.
Aspiremos o ar como se dele viesse o elixir da juventude.
Abandonemos resmungos.
Não nos exilemos nas masmorras que a neurose cria.

O tempo se chama agora.
O dia é hoje.
A vida é eterna devido à impermanência – eixo paradoxal.

Tornemo-nos jardineiros de prados.
Saiamos das estufas climatizadas.
Sejamos menos especialistas e mais aventureiros.
Corramos mais riscos.
Desobedeçamos aos cabrestos.
Testemos nossa forma afoita que nos ocorre.
Encarnemos a abundancia do afeto.
Assumamo-nos no que temos de MELHOR.

Antes que chegue o fim, fecundemos a vida com ternura.
Borboleteemos o pólen do amor.
As moradas eternas são vizinhas nossas.
Mudemo-nos para lá enquanto é tempo.



29 de maio de 2012

SÓ O AMOR-PAIXÃO NÃO BASTA




Estou às voltas dos preparativos do casamento da minha caçulinha com meu genrinho Fernando...  e, aproveitando o tema... 
Algumas dicas.

Aos que não casaram,
Aos que vão casar,
Aos que acabaram de casar,
Aos que pensam em se separar,
Aos que acabaram de se separar.
Aos que pensam em voltar…
Não existem vários tipos de amor, assim como não existem três tipos de saudades, quatro de ódio, seis espécies de inveja.

O AMOR É ÚNICO,
como qualquer sentimento, seja ele destinado a familiares, ao cônjuge ou a Deus.
A diferença é que, como entre marido e mulher não há laços de sangue,
A SEDUÇÃO...tem que ser ininterrupta…
Por não haver nenhuma garantia de durabilidade, qualquer alteração no tom de voz nos fragiliza, e de cobrança em cobrança, acabamos por sepultar uma relação que poderia SER ETERNA

Casaram. 
Te amo pra lá, te amo pra cá.
Lindo, mas insustentável.
O sucesso de um casamento exige mais do que declarações românticas.
Entre duas pessoas que resolvem dividir o mesmo teto, tem que haver muito mais do que amor, e às vezes, nem necessita de um amor tão intenso.
É preciso que haja, antes de mais nada, RESPEITO.

Agressões zero.
Disposição para ouvir argumentos alheios. 
Alguma paciência… Amor só, não basta. 
Não pode haver competição. 
Nem comparações. 
Tem que ter jogo de cintura, para acatar regras que não foram previamente combinadas. 
Tem que haver... BOM HUMOR... para enfrentar imprevistos, acessos de carência, infantilidades.
 Tem que saber levar.
Amar só é pouco.
Tem que haver (sabedoria) e inteligência.
Um cérebro programado para enfrentar tensões pré-menstruais, rejeições, demissões inesperadas, contas para pagar.
Tem que ter disciplina para educar filhos, dar exemplo, não gritar.
Tem que ter um bom psiquiatra. 
Não adianta, apenas, amar.
Entre casais que se unem , visando à longevidade do matrimônio, tem que
haver um pouco de silêncio, amigos de infância, vida própria, um tempo pra cada um.
Tem que haver confiança. Confiança na pessoa amada assim como auto-confiança.
Certa camaradagem, às vezes fingir que não viu, fazer de conta que não escutou.
É preciso entender que união não significa, necessariamente, fusão.
E que amar “solamente”, não basta.
Entre homens e mulheres que acham que O AMOR É SÓ POESIA, 
tem que haver discernimento, pé no chão, racionalidade. 
Tem que saber que o amor pode ser bom pode durar para sempre, mas que sozinho não dá conta do recado.
O amor é grande, mas não são dois.
Tem que saber se aquele amor faz bem ou não, se não fizer bem, não é amor. 
É preciso convocar uma turma de sentimentos para amparar esse amor que carrega o ônus da onipotência.
O amor até pode nos bastar, mas ele próprio não se basta.
Um bom Amor aos que já têm!
Um bom encontro aos que procuram!
E felicidades a todos nós!
 ***

1 de maio de 2012

A PALAVRA É... INTENSIDADE!

A palavra do dia é... Intensidade.
Força, expressão, veemência.
Pode ser que a neutralidade facilite boa parte do caminho pela frente, mas, a emoção estaria comprometida. 
Ser intenso é demonstrar de modo a surpreender.
Tão intenso quanto sol que brilha numa tarde de verão, é o amor que se sente. 
É dominante, rendido, desarmado.
Existem muitas formas de amar, não sei dizer se há uma certa - se é que ela existe, porém, vale uma ressalva.
O importante é ser marcante para alguém, sendo determinante, sendo seguro, amando com todas as suas forças, fazendo a diferença na vida das pessoas.
Você pode viver e não produzir nada, não marcar ninguém, ser neutro, contudo, você pode passar por essa vida e fazer das suas atitudes, lembranças boas... inesquecíveis.
Tudo o que se faz em vida, ecoa na eternidade.
Então, uma dica: mova-se!
Você pode pegar o ônibus e ser mais um passageiro, você pode pegar o ônibus e ser O passageiro; tudo depende da escolha que você fizer, tudo depende do que você quer deixar.
O amor nos permite loucuras que, em sã consciência, talvez, nos travasse, mas, a força do sentimento que envolvem as pessoas e as levam a se apaixonarem, provoca reações incontroláveis, intensas.
Amar alguém exige paciência e sabedoria.
Não basta gostar, não basta amar, tem de ser intenso.
Um aperto de mão tem de fazer o outro sentir: firmeza.
Um abraço tem que transmitir força e cumplicidade.
Um beijo tem de conter, vontade, desejo, intensidade.
Você tem que se fazer notar.
O amor pode englobar um único cometa ou todo universo. 
A intensidade com que amamos faz de todo o resto, apenas, parte do contexto. 
Amar presume dedicação, presença (ainda que distante), cuidados com o outro.
Então, que sejamos todos sábios a ponto de ponderarmos atitudes para nossa felicidade. 
Sejamos sempre intensos, marcantes, vitais... inesquecivelmente 'únicos'.
A intensidade nos sentimentos se faz necessária. 
Portanto, não deixe a chance passar, viva e se relacione com profundidade. 
Com o tempo, você verá que a sua intensidade, se for verdadeira, trará bons frutos, dentre eles: a felicidade e a reciprocidade.
Você vai notar... pois só quem sente pode retribuir tal intensidade.

É, muito bom ser intenso e receber esta dádiva da intensidade.
Experimente! 
***


24 de abril de 2012

AUTO-DESABAFO



***
Desde menina que invariavelmente me pego - final de noite - fazendo um balanço do dia, semana, ano... de forma especial, a auto-análise é fatal, quase que diáriamente me tornou condição sine qua non (indispensavel).
Característica pessoal.
Em razão disso... tenho passado dias, semanas até sem fazer uma das coisas que mais gosto: escrever.
Hoje... reinicio com mesmo objetivo: dizer algo que venha do coração, sem máscaras, sem camuflagem, sem nenhuma forma outra que não seja a verdade, por menos bonita ou dolorosa que seja.

O Tempo que me resta 

Os anos me revestiram de uma impenitente obstinação.
Persisto.
Não me intimido no pavor de ser jogada na direção do imponderável.
A experiência de lidar, constantemente, com alegrias e decepções, tristezas e triunfos me deixou com uma estranha sensação: nada pode espantar-me.
Paradoxalmente, insisto na teimosia e abandono o desafio de mover montanhas.
Por anos, esqueci de contar os meus dias.
Desperdicei tempo.
Trabalhei incansavelmente.
Estudei... Estudei... Estudei... e, continuo estudando, senão, fico pra trás.
Engajada, tentei construir castelos improváveis.
Perdi-me no ativismo de um otimismo exarcebado.
Abracei mais projetos do que podia – muitos não passavam de fuga.
Dei passos maiores do que as pernas.
Na correria, evitei monologar.  
Quebrei espelhos para não ficar cara a cara comigo mesma. 
Devaneios onipotentes serviram para desancorar a jangada do porto de minha realidade. 
Delirei com utopias messiânicas.
Desenraizei-me.
Hoje, com poucas folhas no calendário (rs), tento redobrar cada instante.
Redescubro o ócio, ainda que esteja à frente de uma enorme responsabilidade junto à uma Instituição familiar, trabalhando, trabalhando, trabalhando...
Reaprendo a rotina.
Desejo reencontrar-me no des-sufoco.
O dia sem espalhafato me basta. 
A noite, sozinha... me dá refrigério.
Quero viver, simplesmente viver, saboreando detalhe por detalhe do que faz parte da vida.
Sim, consciente dos obstáculos e sem quixotismo, Ser... simplesmente Ser.
Mesmo consciente de que alguma tragédia possa rondar a minha casa, proponho a mim mesma perder a pressa.
Sair da marcação cerrada do relógio que nos condiciona-incondicionavelmente.
Consternada, noto um vazio embaçando os olhos de antigos e até atuais amigos .
Vazio tenebroso.
Entristecida por vê-los roubados de si mesmos, tatuo na pele um mandamento: viva com intensidade!
Não quero perder a alma.
Marco a ferro o imperativo de amar o belo, a justiça, o bem.
A idade através do tempo, abre os meus olhos.
Noto ventanias assobiando pelas frestas do castelo que outrora considerei inexpugnável.
Eu, adolescente afoita, cedo para a mulher da esperança cauta, estava presa, só não queria admitir.
A construção de uma personagem me consumiu – custou-me caro.
Hoje, escancaro janelas e portas.
Declaro-me devassável.
Assumo minhas fragilidades.
Conscientizo-me com minhas vulnerabilidades.
Permito-me... errar, sem culpas e medos.
Perco o receio de admitir minhas limitações, e, da mesma forma, conheço de perto, meu potencial. 
Já não me tranco para o vento impetuoso que espalha o pó das vaidades.
Entre o desempenho e a contemplação, prefiro apaziguar os olhos.
Aprimoro a dança, que me faz tão bem... afinal, quem já foi bailarina clássica, não deixa de ser .
Serena, espalho o bálsamo que sara feridas.
A pausa tem poder de cura.
O Eclesiastes avisa: existe tempo para tudo.
Sim, há tempo, inclusive, de fechar olhos e ouvidos.
Tempo de ir para o escuro e esperar o feitiço do ódio desaparecer, a mágoa da injustiça, abrandar.
Do silêncio, arrancar forças que esvaziam antigos messianismos – todos travestidos de piedade.
Chego a ouvir o barulho do meu rancor, disfarçado de religiosidade, perdendo cada vez mais, força.
A minha paz precisa dessa fonte de bonança.
Desejo a sensibilidade de escutar um ribeiro, que se espreme entre pedras.
Procuro, entre vários barulhos, o murmúrio dessas águas despretensiosas.
Entro na época própria de declarar: já não me empolgo com o rugir das marés.
Prefiro as suaves sinfonias.
Em mim, a violenta rebentação dos oceanos cede espaço para a sinfonia dos regatos.
Sim, permiti que se grudassem abatimentos e azedumes no coração.
Ainda carrego um bornal com pedregulhos ásperos – metáfora de memórias que cortam.
Não as coleciono com orgulho.
As quinas afiadas de meu passado dolorido carecem de um tempo moroso, que me permita burilar todas as perdas e pedras. 
Cansada de sentir os cardos da desilusão, também necessito descobrir a terapia de passear em jardins, praças, coretos... (será que ainda existem?)
Já me falaram de pessoas restauradas pela beleza das flores e pelo cheiro da mata.
Quem sabe eu reaprenda a sentar em cadeiras de balanço e saiba cultivar uma quietude capaz de fazer-me coincidir comigo mesma, pois, amo o silêncio.
Prometo: hei de deitar-me, serena, como fazia nos tempos de menina; vou balançar na rede e deixar o ranger dos ganchos aquietar o sono.
Guardo saudades melancólicas.
Visitada por uma nostalgia triste, recuso perder quem eu amo.
Eis porque me esforço tanto para passar um cadeado na amargura e desvencilhar-me do narcisismo tolo de querer salvar o mundo.
Devo proteger as únicas riquezas que me restam: meus queridos. 
(Aviso raposas e chacais: – Vocês não destruirão as minhas vinhas; não permitirei que vocês invadam o território onde protejo a minha matilha), porque sou mulher e homem pra isso.
Disponho de menos tempo do que já vivi.
Pretendo degustar cada dia com a delicadeza que ele merece.
Os anos que me restam podem ser poucos, mas não serão banais.
Com certeza!
Tenho dito.
***

13 de março de 2012

A ARTE EM OBSERVAR


Entre todos os presentes que ganhamos ao nascer, a capacidade de perceber a beleza da vida é o mais precioso.
Com os olhos, apreciamos cenas e vistas maravilhosas.
Com os ouvidos, escutamos canções e melodias tocantes.
Com o toque e o paladar, descobrimos e saboreamos delícias infinitas.
Os sentidos são dotados de um poder oculto capaz de contagiar aos demais.
A varinha de condão que espalha o pó mágico sobre tudo que as pessoas ouvem, tocam e vêem se chama 'observação'.
A coisa mais maravilhosa da observação é sua fluidez.
Como a água, ela flui sem esforço a partir da fonte original, em algum ponto da mente.
Mesmo que, na maior parte do tempo, a observação apenas toque com suavidade a superfície das coisas, dando-lhes um tom agradável, ela pode também penetrar nos mais recônditos cantinhos, destacando detalhes mínimos sob sua poderosa lente de aumento.
A observação permite que se perceba a beleza de um terreno baldio, de uma ponte, de um estacionamento, até de uma parede nua.
Também é capaz de revelar a você o que ninguém mais vê: o som das folhas voando na brisa, a determinação da velhinha que atravessa um cruzamento movimentado, as cores dos guarda-chuvas coloridos dançando sobre a multidão.
Já quando a pessoa fica absorta em si mesma ( e se transforma em refém de seu diálogo interior), a realidade do dia-a-dia fica muito banal.
Sem dar atenção às coisas, tudo se torna uma mancha, um nada – um “e daí?”.
A caminho do encontro com o amado, você ensaia mentalmente o que vai dizer.
Num restaurante de luxo, lê o longo cardápio.
Ao chegar em casa, verifica as mensagens na secretária eletrônica.
Absorta em seus pensamentos, não observa o que acontece em sua volta.
E por que deveria?
Em seu modo de ver, não está acontecendo nada.
Mas espere!
Tem certeza de que nada acontece?
Ou será que o que você considera “nada” não é o prelúdio de alguma coisa muito importante?
- O silêncio da igreja antes de a noiva dizer o “sim”;
- o suspense antes da cortina subir;
- a pausa antes do primeiro aplauso;
- o momento de respirar fundo antes de assinar um contrato qualquer;
- o toque em seu ombro antes de se virar;
- o suspiro do bebê ao adormecer;
- o silêncio que precede as primeiras notas da sinfonia;
- o instante que antecede à uma decisão.
Antes de a orquestra começar a tocar, o regente ergue a batuta para criar o que, em linguagem musical, se chama 'anacruse' – uma nota fraca que precede uma forte.
Da mesma forma, cada momento pode ser interpretado como uma nota sutil, um breve intervalo entre o que era e o que está por vir.
Para descobrir as maravilhas da vida, você só tem de se imaginar erguendo a batuta do regente.
Com esse gesto mental, estará observando com atenção aos detalhes imperceptiveis a muitos.
Instantaneamente, tudo entra em foco: o livro sobre a mesa, a panela no fogão, as flores no vaso.
É o momento mágico, um gostoso ponto de partida, como o “era uma vez” que dá início a todos os mitos e fábulas... da nossa imaginação.

Fale - expresse-se menos em palavras, e, observe mais... é sábia esta atitude!
Pense nisso!
                                                                 ***